Aprendendo com os erros dos outros – Parte 4



1. …e conselhos aos sábios 

“Ajuda o teu semelhante a levantar a carga, mas não a levá-la.” Pitágoras
Davi foi um exímio escritor. 
Escreveu cânticos que são conhecidos por salmos, e foi o autor mais produtivo neste estilo em todo o Antigo Testamento. Seus salmos têm sido lidos, cantados, orados e servido de base teológica, servido de inspiração e consolo para os aflitos da alma.

Os salmos fazem derramar a alma humana em forma de palavras, frases, expressões. Davi sabia muito bem lidar com essa ferramenta e sua matéria prima, a própria alma, atribulada muitas vezes, reflete as questões que incomodam homens há milhares de anos.

Seria diferente conosco? De modo algum. Os problemas vividos por Davi são os mesmos vividos por cada um de nós. Mas devemos prestar atenção a um detalhe que faz diferença: Davi é conhecido como o “homem segundo o coração de Deus”. Em outras palavras, embora sejamos todos pecadores, Davi, ainda assim, sempre voltava a sua atenção para Deus.


O pecado é um problema humano global, e esquecer-se de Deus é ainda um pecado mais grave. Davi não! Sua alma inclinou-se para Deus em cada momento dramático de sua vida e as lições que ele aprendeu foram deixadas nas páginas da Bíblia para servir-nos de exemplo. Por isso, vejamos quais são os conselhos que Davi nos daria depois de suas amargas experiências.

Conselho número 1:
“Não façam como eu. Tenham cuidado com o seu tempo livre.”
Quando um homem não sabe usar de forma adequada o tempo livre, o Diabo faz da sua mente uma grande oficina. Você já deve ter ouvido o conhecido ditado que diz: “Mente vazia, oficina do Diabo”.

Quando um líder não sabe usar de forma sábia o tempo livre, a sua mente corre o risco de se tornar um amplo terreno de Satanás, porque ele é inteligente e esperto para aproveitar-se do nosso descuido.

Existem dois extremos perigosos na vida do líder. O primeiro é a ociosidade destrutiva; o segundo é a exaustão crônica.
Os efeitos da ociosidade destrutiva nós já vimos na história de Davi, nos capítulos anteriores. Um líder nessa condição envolve-se em atividades que não são da sua competência, se intromete em questões alheias. Em outras palavras, “ele mete o bico onde não foi chamado” e passarinho que põe o bico em ninho estranho tem que dar comida a filhote que não gerou.

Por outro lado, um homem cronicamente exausto se torna presa fácil de seus hormônios. E não nos esqueçamos: ainda que sejamos espiritualmente maduros, os nossos hormônios não são convertidos… e podem nos trair.

Portanto, organize-se para aproveitar bem cada minuto de sua agenda. E muito cuidado com o tempo livre.

Conselho número 2:
“Enquanto espera ou descansa, ocupe-se com o que é construtivo e que faz você crescer.”

A diversão, o repouso, o lazer devem estar na agenda de todo líder. Ninguém é de ferro. Todos nós precisamos de tempo com qualidade para a família, para o lazer e para nós mesmos, individualmente.

O modo como iremos preencher esse tempo poderá determinar o bom aproveitamento dele ou a nossa própria degola. Enquanto você descansa ou se diverte com a família num dia qualquer, não permita que o Diabo faça da sua mente um laboratório para testes nucleares, colocando “pensamentos explosivos”, “bombásticos”.

Tome como exemplo Paulo. Como foi que Paulo ocupou o seu tempo quando esteve preso? Aparentemente teve uma tremenda oportunidade para viver ociosidade destrutiva. Por que, então, Paulo não se corrompeu? Por que não se perdeu em pensamentos vagos? Paulo se manteve aparentemente ocioso por dois anos, quando esteve preso. O que ele fez para “manter a linha”?

Ele foi capaz de ocupar-se com aquilo que era construtivo e fazia o seu espírito crescer e se fortalecer. Ele leu. Ele escreveu. Ele aconselhou. Ele cuidou das igrejas enviando cartas. Ele orou. E repetiu todas essas atividades durante todo o tempo.

Na carta que escreveu a Filemon ele disse: “Vocês pensam que eu estava lá, vivendo ociosamente? Destrutivamente? Não. Eu gerei Onésimo nas minhas algemas”. Isto é uma paráfrase minha, mas você pode conferir o texto original em Filemom 1.10.

Gente que se ocupa dessa maneira glorifica a Deus e guarda o seu coração contra o mal que tão de perto nos rodeia.

Um caso extraconjugal pode começar em míseros dez dias de férias na praia.

Um caso extraconjugal pode começar num churrasco trivial em final de semana.

Um caso extraconjugal pode começar em congresso de espiritualidade!

Seria muita ingenuidade pensar que o Diabo está cochilando na rede enquanto os cristãos cuidam das coisas do Senhor. Por que Jesus diria: “Vigia a tua alma”? Porque ela é o alvo predileto dos ataques que recebemos.

Todas as manhãs faça uma vistoria dentro de você, em seus pensamentos, nos seus planos, naquilo que tem ocupado a sua mente, e identifique se algo destrutivo tem se desenvolvido em sua alma, nos corredores do seu coração, durante os momentos ociosos que a sua imaginação elabora.

Conselho número 3:
“Cuidado com o poder destruidor de uma paixão proibida.”
Leia o que veio escrito em bilhete:

“Você estava lindo com aquele terno ontem, meu pastor.”
Este elogio não foi escrito por minha esposa e entregue a mim.
Essa frase, esse elogio, é uma semente. Concorda? Dependendo do solo onde ela é semeada, poderá dar frutos. Uma semente pode ser lançada por email, como “Seu perfume ontem estava irresistível, minha irmã.” Ou ainda por meio de mensagem via celular.

Expressões de admiração, apreciação e elogio não trazem em si quaisquer problemas. Que mal pode haver em dizer elogios a alguém bem vestido? É a expressão da verdade. Que mal pode haver em comentar o aroma agradável de um perfume? É a expressão da verdade. Mas palavras embutem valores e significados em diferentes contextos, em diferentes situações por diferentes pessoas. E essas situações são delineadas pela condição que o ouvinte e o falante se encontram. Mais que isso: é preciso considerar a presença e atuação do Diabo sobre essas mesmas situações e ocorrências. O mundo tem seu componente espiritual e oculto, e não seríamos suficientemente ingênuos em não contar com isso.

No momento parece apenas uma frase despretensiosa, sem maldade, mas o Diabo faz dela uma semente maligna e a planta na terra das nossas imaginações inclinadas para a queda.
E o Senhor viu que a maldade do homem na terra era grande e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era continuamente má. (Gênesis 6.5)

Quando Davi relacionou-se sexualmente com a mulher avistada a partir da janela de seu palácio, ela engravidou. Quando soube a novidade, ela mandou avisar a Davi que estava grávida, esperando, talvez, uma providência amistosa em seu favor. Não sabemos ao certo que reação ela procurou causar com a informação, mas sabemos a reação de Davi quando soube que seu caso secreto traria uma criança ao mundo.

E aqui eu chamo a atenção para o que ocorre ao homem dominado por paixão proibida. Parece não haver limites. Ele ficou desequilibrado ao saber do filho fora do casamento e imediatamente foi dominado por imaginação demoníaca. O rei mandou trazer Urias, o heteu, que lutava na guerra, a mesma guerra que Davi deveria estar presente. Urias era o marido legítimo da mulher. Davi serviu vinho a ele e lhe deu uma noite de folga, imaginando que ele teria relações com a esposa e, com isso, a paternidade do filho bastardo pudesse ser atribuída a ele.
Mas Urias não foi para casa, não deitou e não se relacionou com a esposa. Nos tempos de guerra, a agenda de Urias tem os dias comprometidos com o dever de soldado. Ele pensou nos seus irmãos e não se viu envolvido em prazeres pessoais enquanto os soldados do seu exército estivessem matando e morrendo. Dispensado por Davi, Urias não só não foi para casa, como sequer saiu do palácio. Dormiu à porta do rei.

De seu lado, Davi afundou-se mais e mais na perversidade oculta em seu coração. Ele, então, planejou eliminar Urias. Escreveu um bilhete e enviou a Joabe, comandante do seu exército:

Posicionai Urias na linha de frente, onde a batalha for mais feroz, e deixai-o sozinho para que seja ferido e morra. (2Samuel 11.15)
Você sabe a história. A carta foi enviada para Joabe e o portador foi o próprio Urias, o sentenciado de morte pelo rei. Foi muita maldade. Eu não estou falando de qualquer homem; estou falando de Davi. Há pouco escrevi que ele é conhecido como “homem segundo – ou conforme – o coração de Deus”. Quem você conhece com o mesmo adjetivo?

Se isso aconteceu a Davi, poderá acontecer conosco? Estamos protegidos contra cenas como essas? Adultério, homicídio? O coração do homem é uma caixa de surpresas.

Davi tinha cinquenta anos de idade, homem maduro, vivia o melhor momento de sua vida, no reino, no campo de batalha, na vida espiritual. Havia conquistado mais que os seus sonhos jamais conceberam. Mas ocupou mal o seu tempo e envolveu-se numa paixão que não era da sua conta.

Qual é o momento do seu ministério? Como está a sua guarda? Você tem vigiando a alma?

O melhor momento para vencer a tentação é no início e usando toda a força disponível. Não pense que maturidade é garantia de livramento. Não pense que por estar há muito tem pó na Igreja, você está isento às tentações. Tempo de casa só é bom para quem tem Fundo de Garantia a receber. E há gente com muito tempo de casa sendo mandado embora por justa causa porque caiu prostrado diante de uma paixão proibida.

Conselho número 4:
“Nunca tente resolver um problema por vias erradas. Você criará maiores problemas.”

Quero ser mais incisivo neste ponto.

Davi tinha um problema grave e tentou resolvê-lo criando problema ainda maior. Mandar matar o companheiro inocente não foi a decisão certa. Vemos cenário parecido em Gênesis capítulo 4, que fala de Caim levando Abel ao campo para assassiná-lo (v. 8). Caim derramou sangue inocente na terra. E mais para frente a Palavra diz:

Quando cultivares a terra, ela não te dará mais sua força; serás fugitivo e vagarás pela terra. (Gênesis 4.12)

Deus não se referia a terra em sentido literal. Ele falava da vida, do coração, do ministério e até mesmo do relacionamento com o seu semelhante. Quem assassina companheiros não consegue extrair o melhor fruto do seu trabalho. O vigor do seu esforço é fraco se comparado ao que poderia ser se promovesse vida em vez de morte.

Eu digo isso, porque há líderes promovendo morte em seu ministério. Disputas internas (e externas) por poder, por influência, por alianças derramam sangue que enfraquece e inibe o crescimento e a prosperidade. O dia que lançarem sementes, essa terra não produzirá porque foi regada com sangue e Deus não tem compromisso de prosperidade na terra de quem derrama sangue inocente: refiro-me ao ministério.

T. D. Jakes fez uma afirmação que guardo para o resto da vida:
Se não gostas do que estás colhendo, olha para trás e veja o que foi plantado.

Davi semeou dois tipos de sementes malignas: a do adultério e a do homicídio. Qual foi a sua colheita? Basta olhar 2Samuel 13. Amnon, filho de Davi, apaixonou-se por Tamar, sua irmã, e a estuprou: a colheita foi um incesto em sua própria casa. Absalão, outro filho de Davi, se revoltou com a indiferença do pai ao tratar o problema, e assassinou Amnon. Se você seguir lendo a Bíblia verá no capítulo 15 do mesmo livro que o próprio Absalão rebelou-se politicamente contra Davi e foi morto por Joabe.
É preciso levar a sério essa infalível lei da semeadura no exercício da liderança. Não tente resolver problemas, pequenos ou grandes, acrescentando mais problemas à situação. Procure o caminho certo e tome as medidas certas para que as coisas se encaminhem favoravelmente. Acabe de uma vez por todas com arremedos, com “jeitinhos”, com acobertamento de pecados e com o acréscimo de pecado sobre pecado. Rompa de uma vez por todas com o ciclo que destrói e mata em vez de promover edificação e vida!

Lembro-me de um irmão que foi ordenado ao diaconato. Ele trabalhou seis meses nessa função e de repente precisou de dinheiro. Alguém o aconselhou a processar a igreja reivindicando R$ 20.000,00 de indenização pelos serviços de diácono.
O pastor líder foi até ele e pediu que não levasse o caso adiante, explicando que a igreja tinha pouquíssimos recursos. O diácono não deu ouvidos ao antigo líder.

Depois de muita negociação, a igreja conseguiu acordo para pagar 20 prestações de R$ 350,00.

Agora veja a colheita real que o diácono levou “de brinde”, porque com o dinheiro “da oferta da viúva” não se brinca. O irmão começou a receber todo mês a quantia combinada. De repente a esposa foi diagnosticada com câncer. Chamaram o pastor líder para orar, e ele disse: “Eu não coloco a minha mão onde Deus colocou a mão dele para tratamento.”

Passou dois meses e a filha foi estuprada. Passaram alguns meses, ele perdeu a razão e ficou louco, sendo internado em hospital psiquiátrico. A família daquele homem foi dizimada.

A esposa morreu de câncer, ele foi para um hospital de loucos e a filha carregou o trauma de um estupro. A família acabou tal qual a de Davi.

O que o profeta Natã disse o rei?

Pois tu o fizeste em segredo, mas eu farei o que disse perante todo o Israel e à luz do dia. Então Davi disse a Natã: Pequei contra o SENHOR. Natã respondeu a Davi: Também o Senhor perdoou o teu pecado, por isso, não morrerás. (2Samuel 12.12,13).

Em outras palavras, a graça de Deus não cancela a colheita feita por ninguém, nem mesmo do homem segundo o coração de Deus. A graça de Deus preserva o plantio e todos nós colhemos o fruto segundo a semente que lançamos na terra, seja essa terra o nosso ministério, seja a nossa família, seja aonde for.

Conselho número 5:
“Nunca tente esconder do cônjuge aquilo que está diante dos olhos do Senhor.”

Devo supor que cada cristão esteja consciente de que Deus vê tudo.

Os olhos do Senhor estão em todo lugar, vigiando os maus e os bons. (Provérbios 15.3).

A tentativa de Davi de esconder o seu pecado foi bastante inocente. O pecado cheira mal diante de Deus e esse mal cheiro não pode persistir: Deus recorreu ao seu profeta. Sabe quando Deus levanta profetas? Quando o sacerdote não ensina o povo e quando o rei não é reto diante de Deus. O recurso do Pai para não ficar sem testemunho na terra é o profeta. Então Deus revelou o caso a Natã.

Mas ainda temos a cena do crime preservada, e Davi pensa que pode pagar dívida de pecado com cartão de crédito de boas obras. Não pode. Esse é o pensamento típico das armadilhas do poder. Em nossos dias há líderes repetindo o erro, racionalizando o próprio pecado. Eles dizem: “Eu já jejuei muito, eu já preguei muito, eu já ganhei muitas almas para Deus e, portanto, tenho crédito lá em cima para dar uma ‘pecadinha’.”

Nem mesmo Davi, o homem segundo o coração de Deus, teve crédito para encobrir o seu pecado. O pecado, qualquer que seja, dá legalidade a Satanás e afasta você de Deus. “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3.23), é o que ensinou o apóstolo Paulo. E quanto a Davi, a Bíblia é explícita:
Mas, visto que com esse ato deste motivo para que os inimigos do Senhor blasfemassem, o filho que te nasceu certamente morrerá. (2Samuel 12.14).

Enumerei os erros de Davi. Mas a situação não aponta os canhões somente para o seu lado.

Bate-Seba também tem parcela de culpa e ensina sobre as intensões da alma humana, especialmente a feminina. Vocês acham que Bate-Seba era inocente? Não era. Todo pecado – e no caso o pecado de adultério – é um processo que envolve dois lados.

Em primeiro lugar, não creio que tudo tenha acontecido em um dia. O caso era muito sério, tratava-se de Davi, o grande herói do povo, o rei exemplar ungido de Deus! E um dia não é suficiente para um envolvimento tão intenso como esse. Um dia não é suficiente para cegar o homem desse jeito.

E aí eu pergunto: – Por que ela tomava banho em lugar onde podia ser observada pelo rei? Ela não tinha outro lugar para fazer isso? Você já deve ter feito essa pergunta. E vale uma advertência séria para as mulheres, especialmente as que estão em posição de destaque, à frente de algum trabalho ou de algum grupo: – A maneira como você se veste revela a intenção do teu coração e as tendências da tua alma.

Veja o que temos em Provérbios 7.6-23:

Porque da janela da minha casa, por minhas grades, olhando eu, vi entre os simples, descobri entre os jovens um que era carente de juízo, que ia e vinha pela rua junto à esquina da mulher estranha e seguia o caminho da sua casa, à tarde do dia, no crepúsculo, na escuridão da noite, nas trevas. Eis que a mulher lhe sai ao encontro, com vestes de prostituta e astuta de coração. É apaixonada e inquieta, cujos pés não param em casa; ora está nas ruas, ora, nas praças, espreitando por todos os cantos. 
Aproximou-se dele, e o beijou, e de cara impudente [sem juízo, sem vergonha] lhe disse: Sacrifícios pacíficos tinha eu de oferecer [era crente, cultuava]; paguei hoje os meus votos. Por isso, saí ao teu encontro a procurar-te, e te achei. Já cobri de colchas a minha cama, de linho fino do Egito, de várias cores; já perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamomo. Vem, embriaguemo-nos com as delícias do amor, pela manhã; gozemos amores. Porque o meu marido não está em casa [era casada, ela tinha em casa um Urias], saiu de viagem para longe. Levou consigo um saquitel de dinheiro; por volta da lua cheia ele tornará para casa. Seduziu-o com as suas muitas palavras, com as lisonjas dos seus lábios o arrastou. E ele num instante a segue, como o boi que vai ao matadouro; como o cervo que corre para a rede, até que a flecha lhe atravesse o coração; como a ave que se apressa para o laço, sem saber que isto lhe custará a vida”. (acréscimos feitos por mim)

Minha irmã e meu irmão: saiba que esse texto quebra laços neste exato momento. Esse texto é muito forte e revelador, alcança o ponto mais íntimo da nossa alma e desfaz a obra do Diabo. Cabe a cada um de nós, agora, vigiar sobre os lugares que frequentamos, a posição para onde nos deslocamos, o lugar onde nos sentamos e mais, a impressão que a maneira de nos vestir irá causar. Seja consciente na hora de escolher o seu estilo e pense sobre a mensagem que o seu estilo irá transmitir.

Bem, já vimos os erros de Davi e também os de Bate-Seba. Agora vamos nos deter um tempo nos erros cometidos por Urias. Esta passagem também nos ensina muito, especialmente aos maridos.
Então Davi mandou dizer a Joabe: Traze-me Urias, o heteu. E Joabe o enviou a Davi. Urias veio a Davi, este lhe perguntou como estavam Joabe e o exército e como ia a guerra. Depois Davi disse a Urias: Vai para a tua casa e procura descansar. E, assim que Urias saiu do palácio real, foi-lhe mandado um presente do rei. Mas Urias dormiu à porta do palácio real, com todos os servos do seu senhor, e não foi para casa. Então contaram a Davi: Urias não foi para casa. E Davi perguntou a Urias: Não chegaste de uma viagem? Por que não foste para casa? Urias respondeu a Davi: A arca, as tropas de Israel e de Judá estão em tendas; Joabe, meu senhor, e os servos de meu senhor estão acampados ao relento. Como eu iria para casa comer e beber e me deitar com minha mulher? Por tua vida e por tua honra, não farei isso. Então Davi disse a Urias: Fica ainda hoje aqui, e amanhã te despedirei. Assim, Urias ficou em Jerusalém aquele dia e o seguinte. Davi o convidou a comer e a beber com ele e o embebedou; e à tarde Urias saiu e foi deitar-se na sua maca, onde estavam os servos de seu senhor, mas não foi para a sua casa (2Samuel 11.6-13).

A intensão de Davi ao mandar Urias para casa era maligna, mas o princípio que Urias deveria ter preservado era legítimo. Ele estava há quarenta dias na guerra, portanto, fora de casa. Chegando à cidade, deveria ir para a sua casa encontrar-se com sua esposa. No entanto o versículo 9 diz que ele “não desceu para sua casa”. E alegou fidelidade aos companheiros na guerra e a presença da arca no arraial dos soldados.

Urias não foi para casa. É interessante notar como ele está preocupado com a arca, com Israel, com Joabe, com os amigos de trabalho e em momento algum ele menciona a sua mulher e os filhos, se é que os tinha. Ele estava preocupado com a arca, ele estava preocupado com o chefe Joabe, ele estava preocupado com a nação inteira, com os companheiros de trabalho, mas em nenhum momento ele se mostra preocupado com sua esposa, com sua família, com sua vida pessoal que era igualmente importante.

Há coisas em nossas vidas que não podem concorrer entre si. Ministério não pode concorrer com casamento. Se não há tempo suficiente para uma atividade importante, diminua o tempo gasto com outra atividade para a qual você se dedica mais. Uma atividade está roubando tempo da outra; há desequilíbrio.
Francamente, é preciso saber separar as coisas. Admiramos que um homem seja fiel ao Senhor, submisso ao seu líder e solidário aos parceiros do ministério. Esperamos ter milhares de homens assim ao nosso lado. No entanto, há uma ordem estabelecida na economia de Deus. E essa ordem precisa ser preservada para que todas as demais áreas de nossas vidas prosperem equilibradamente, sendo igualmente preservadas. A ordem estabelecida por Deus é:

1º Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo
2º A nossa esposa e, se tivermos filhos, a nossa família
3º O nosso trabalho, que provê sustendo para a nossa família e gera recursos para a próxima prioridade que é
4º A obra de Deus.

Essa é a ordem ideal para que as coisas funcionem sem sobressaltos. Inverta essa ordem e espere problemas, certamente. E foi isso o que Urias fez: inverteu a ordem estabelecida para o bom funcionamento das coisas. Qual foi a colheita que ele precisou amargar? Uma traição – porque não supriu a necessidade conjugal da sua esposa – e a própria morte – por alterar a ordem estabelecida.

Urias “criou” uma nova categoria – a sua religiosidade ritual (“a arca”) – e a pôs no lugar de Deus, que deve ser mantido no primeiro lugar. E depois inverteu o terceiro lugar (o trabalho), colocando-o no lugar da família. Os valores de Urias estavam desequilibrados, desalinhados dos valores de Deus. E quando os nossos valores não são os valores de Deus, quando conduzimos nossas vidas pela força da natureza humana e carnal, cometemos pecado. Como o pecado tem um salário já acertado – a morte – Urias recebeu a paga por sua inversão de valores. (Ele foi injustamente assassinado! Ele sofreu pelo pecado de outro, embora não estivesse com suas prioridades alinhadas. Não concordo com esta frase) – Minha sugestão:

“Urias foi ferido injustamente pelo pecado de outro, do rei Davi e a brecha para que este golpe o atingisse foi sua inversão de valores”

Vamos imaginar que Urias fosse para casa e tivesse relações com sua esposa. A ele seria atribuída a paternidade do filho, e talvez ele viesse a descobrir a traição, supondo também que Bate-Seba não suportasse conviver com a mentira e ocultação daquela traição e depois de um tempo contasse a Urias a sua aventura sexual extra-conjugal. Eles poderiam discutir severamente, mas no fim ele consideraria rever seus valores, suas prioridades e passassem a uma nova fase no seu casamento. Crentes no Senhor precisam aprender a conviver com o perdão, pois nem mesmo a infidelidade deve ser usada como razão para separação se houver disposição para o perdão. Deus é poderoso para curar feridas e fazer novas todas as coisas.

Urias permaneceria vivo, corrigiria o seu comportamento desequilibrado e poderiam ser felizes novamente. O perdão que cabe a homens de fé está implícito nesse quadro que pintei. Veja como tudo seria diferente se Urias colocasse as coisas nos devidos lugares.

Sabe qual é o nosso problema? Superestimamos o nosso valor. Pensamos que o nosso valor individual é maior que o nosso valor coletivo. Pensamos que aquilo que fazemos sozinhos vale mais que o que fazemos no grupo: no ministério, na família, na comunidade. Imaginamos (erradamente) que as coisas simples da vida têm menos valor que aquelas que aparecem mais aos olhos dos outros, que dão mais status.

Não despreze os dias das coisas pequenas. (Zacarias 4.10)
A vida de cada um de nós é formada por atividades diferentes com valores e pesos diversos. Por isso, precisamos desvendar o valor que cabe a cada uma das nossas atividades e fazer o investimento adequado para que haja equilíbrio em toda a nossa vida.

A Deus, a parte que cabe a Deus. A família, a parte que cabe à família. E assim com tudo o que nos envolve, sem desprezar as atividades aparentemente simples que contribuem para fazer de nós quem somos.

Quero finalizar este capítulo chamando a sua atenção para o principal valor na vida de um líder: a vida. Quando se trata de vidas, todos devemos nos submeter a ela. Seja quem for, ocupe o cargo que ocupar, não importam as credenciais: a vida está em primeiro lugar.

Joabe errou. Ele associou-se a Davi para a morte de um homem. Joabe não sabia a circunstância do pecado nem as motivações do rei para desejar a morte de Urias; isto somente agrava a culpa de Joabe, porque ele não questionou as razões pelas quais deveria criar uma estratégia que resultasse na morte de uma de seus soldados.

Joabe cumpriu ordem absurda, sem questionar. Não é porque a patente de Joabe era inferior a do rei que ele deveria obediência à ordem estúpida. Há vida em jogo e os interesses da vida estão acima de qualquer patente, de qualquer posição ou cargo.
A submissão não é incondicional diante da preservação da vida. Se fosse, Misael, Ananias e Azarias teriam se prostrado diante da estátua do rei Nabucodonosor na Babilônia. Se fosse, a mãe de Moisés teria abortado (lançado ao rio?) o filho Moisés em obediência à ordem do faraó.


Quando a vida corre risco, opte pela vida em detrimento da obediência cega e incondicional. E nós, líderes, lidamos e lideramos vidas o tempo todo: a ela devemos nossa submissão, pois esse foi o exemplo deixado pelo Senhor Jesus, que desejando que tivéssemos vida, esvaziou-se a si mesmo e “não considerou o fato de ser igual a Deus algo a que devesse se apegar” (Filipenses 2.6).

Pr. Josué Gonçalves

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